Ole Schack saiu. A Red Bull não está em crise — está em ruínas
O mecânico que estava na Red Bull antes de ser Red Bull foi embora. Com Horner, Marko, Skinner e Caller já na fila de saída, a equipe mais dominante dos anos 2020 está virando escombros. Carla Ribeiro não tem pena.

Ole Schack esteve em cada Grande Prêmio que a Red Bull disputou. Cada um. Da Hungria de 2005, quando a equipe ainda engatinhava sob os primeiros patrocínios de Dietrich Mateschitz, até Suzuka no mês passado. É o tipo de longevidade que vira lenda no paddock — o mecânico que conhece cada parafuso e cada personagem da linha de produção mais bem-sucedida da última década da Fórmula 1.
Ole Schack foi embora no início desta semana. A justificativa oficial: "mudança na atmosfera de trabalho". Em tradução livre: alguém ou algo quebrou o que ainda havia de intacto dentro de Milton Keynes.
Podem continuar chamando de "fase difícil". Eu chamo de colapso.
Quando começa a narrativa de "só uma fase"
Christian Horner foi mandado embora em julho de 2025 após meses de crise interna, acusações e um vazamento de mensagens que nunca foi explicado satisfatoriamente. Foi traumático, mas foi tratado como cirurgia necessária. Helmut Marko — o arquiteto do programa de jovens pilotos, o cara que descobriu Vettel, Ricciardo, Verstappen — foi para a fila logo depois. Craig Skinner. Matt Caller.
E agora Ole Schack.
Cada saída tinha uma justificativa. Cada saída era "circunstancial". Cada saída era o tipo de coisa que acontece em organizações grandes em transição.
Só que existe uma palavra para quando a direção, o chefe de operações, o diretor técnico adjunto e o mecânico-símbolo de mais de vinte anos saem em menos de doze meses. A palavra não é "transição". A palavra é colapso.
O carro que a Red Bull pensa em jogar no lixo
O abandono de pessoal seria preocupante sozinho. O que torna a situação verdadeiramente absurda é o que está acontecendo com o RB22 em paralelo.
Segundo relatos internos citados pelo jornalista Ralf Bach, a Red Bull está seriamente discutindo abandonar o carro após apenas três corridas. A equipe "perdeu a confiança no projeto". E aqui está o detalhe que deveria estar em todos os noticiários: não há budget para consertar o RB22 sem destruir o desenvolvimento de 2027. A Red Bull precisa escolher entre tentar ser competitiva agora ou tentar ser competitiva no próximo ciclo.
Para uma equipe que ganhou quatro campeonatos consecutivos de construtores, isso não é "uma fase difícil". É uma crise existencial de planejamento.
Verstappen já admitiu que cogita não continuar. No Japão, ele terminou atrás de Pierre Gasly — um piloto da Alpine, a equipe que era lanterna há seis meses. A Alpine agora supera a Red Bull no campeonato de construtores. Gasly segurou Verstappen por 25 voltas em Suzuka. Vinte e cinco voltas.
Quando o piloto quatro vezes campeão do mundo está sendo segurado por um carro que costumava olhar pelo retrovisor, alguma coisa fundamentalmente errada aconteceu.
Verstappen contra a própria engenharia
E o problema não é só o carro. É a direção do projeto.
Fontes ouvidas pelo GPFans revelaram que Verstappen e os engenheiros da Red Bull discordaram publicamente sobre o pacote de atualizações a ser trazido para Suzuka. O piloto e o departamento técnico estão puxando em direções opostas. Numa equipe funcional, o diretor técnico media esse tipo de tensão com clareza e autoridade. Na Red Bull atual — sem Horner, sem Marko, com Laurent Mekies ainda tentando entender o que herdou — essa tensão ficou sem árbitro.
Ole Schack viu isso tudo de camarote. E resolveu apertar a maçaneta.
A saída dele não é só simbólica. É o diagnóstico mais honesto que qualquer comunicado oficial jamais vai oferecer. Quando o mecânico que ficou em 2008 (quando Coulthard abandonou quatro vezes), em 2012 (quando Webber e Vettel brigaram publicamente), e em cada crise administrativa dos últimos dez anos decide que desta vez é diferente — acredite nele.
O contra-argumento que merece ser levado a sério
Vou ser justa: equipes grandes vivem ciclos. A Mercedes dominou sete construtores seguidos e passou por uma seca de anos entre 2021 e 2025. A Ferrari ficou décadas esperando por um campeonato. O próprio surgimento da Red Bull como força dominante saiu das cinzas da BAR/Honda — renomeada Brawn GP, campeã em 2009, absorvida pela Mercedes em 2010.
Ciclos existem. A Red Bull pode se reconstruir. Ainda há engenheiros competentes em Milton Keynes que podem produzir um carro 2027 decente ou encontrar uma solução criativa para o RB22.
Mas nenhum dos exemplos que citei envolveu o mecânico que ficou em cada corrida por vinte anos sair citando "mudança na atmosfera". Nenhum envolveu o piloto principal discordando publicamente da equipe sobre atualizações em plena temporada. E nenhum envolveu a discussão aberta sobre jogar o carro no lixo depois de três GPs porque não há orçamento para consertá-lo sem comprometer o ano seguinte.
Semanas atrás escrevi aqui que Verstappen tinha razão ao reclamar — mas que a culpa era da Red Bull, não do regulamento. O que se vê agora é que a situação era ainda pior do que parecia de fora.
Quando o símbolo vai embora, o simbolismo é claro
Ole Schack não era um quadro na parede. Era uma memória viva da Red Bull de Coulthard, de Webber, dos quatro títulos de Vettel, dos quatro de Verstappen. Quando uma instituição perde sua memória viva — o homem que estava lá antes de tudo começar e que ficou mesmo quando tudo complicou —, não está passando por uma fase. Está mudando de natureza.
A Red Bull de 2024 era invencível. Venceu o campeonato de construtores com rodada de antecedência. Verstappen ganhou dezoito corridas em um único ano.
A Red Bull de 2026 está considerando jogar o carro no lixo após três GPs, está perdendo para a Alpine no campeonato, está com o piloto e os engenheiros discutindo publicamente, e acabou de ver o homem que esteve presente em cada corrida da sua história partir em silêncio, sem cerimônia, porque a atmosfera mudou demais para continuar.
Chame como quiser.
Eu já sei como eu chamo.
Carla Ribeiro é colunista do Quinto Motor. Toda segunda-feira, na Segunda da Carla, ela diz o que você já estava pensando mas tinha medo de falar em voz alta.