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Para de reclamar, Max: a culpa é da Red Bull, não do regulamento

Verstappen chama o regulamento 2026 de 'fundamentalmente falho'. Mas quem está vencendo as corridas não parece ter esse problema. Carla Ribeiro analisa a síndrome do campeão fora do carro vencedor.

PorCarla Ribeiro
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Para de reclamar, Max: a culpa é da Red Bull, não do regulamento
Foto: Motorsport.com / Reproducao — Max Verstappen no cockpit do RB22, carro que ele próprio descreveu como um pesadelo de dirigir em 2026

Vou te contar como funciona a lógica do Max Verstappen em 2026: quando a Red Bull vencia tudo, o regulamento era perfeito. Quando a Red Bull parou de vencer, o regulamento virou um desastre "fundamentalmente falho", um "Mario Kart", uma ameaça à própria essência do esporte. Curioso como a percepção do piloto muda conforme a posição do carro no grid, não é?

Dois Grandes Prêmios disputados em 2026. Dois 1-2 da Mercedes. Antonelli venceu na China com cinco segundos de vantagem para o companheiro Russell. Verstappen saiu da corrida na volta 45 com falha no sistema de resfriamento do ERS — a mesma unidade de potência que já apresentou problemas em Melbourne. Enquanto isso, o piloto holandês usa cada entrevista disponível para dizer que os regulamentos são horríveis, que as corridas ficaram sem sentido, que a Fórmula 1 errou o caminho.

O problema é que essa história tem uma inconsistência enorme no meio.

Quando o campeão vira o analista

O repertório de Verstappen contra o regulamento 2026 é extenso e colorido. "Não é digno de dirigir." "Completamente antinatural." "Fundamentalmente falho." Ele começou a reclamar dessas regras há três anos — antes mesmo de o carro ser construído — e não parou desde então. Cada entrevista, cada coletiva, cada comentário de rádio vira mais uma peça do quebra-cabeça da insatisfação.

Só que existe um detalhe que estraga a narrativa: os outros pilotos estão tendo uma experiência completamente diferente.

Kimi Antonelli venceu sua primeira corrida na Fórmula 1 com autoridade. George Russell fez o segundo lugar sem demonstrar qualquer angústia com o comportamento do carro. Lando Norris, quando ainda estava no grid antes do DNS duplo em Xangai, havia elogiado o equilíbrio do MCL40 em treinos. Oscar Piastri idem. Nenhum deles saiu da corrida falando em "regulamento falho".

Toto Wolff, que ganhou as duas primeiras corridas do ano com sua equipe e tem todos os motivos para defender o regulamento que o está favorecendo, foi direto ao ponto quando perguntado sobre as críticas de Verstappen: "Max está em um horror show. Quando você olha o onboard que ele teve na classificação em Xangai, é horrível de dirigir." A diferença, segundo Wolff, não é o regulamento. É o carro.

O RB22 é o problema, não a FIA

A crise técnica da Red Bull está documentada: problema de peso, ERS instável, carro que perde posições na largada porque não tem energia suficiente no momento certo. Em Melbourne, Verstappen já havia perdido posições na saída porque a bateria simplesmente não estava disponível. Em Xangai, o sistema de resfriamento do ERS colapsou. São duas corridas, dois problemas técnicos distintos, ambos na mesma unidade de potência.

O motor Ford/Red Bull Powertrains é novato. É a primeira temporada da parceria. É razoável esperar dificuldades. O que não é razoável é usar esse momento para transformar toda a Fórmula 1 em vilã.

Günther Steiner, que nunca teve medo de dizer o que pensa, resumiu melhor do que eu conseguiria: "Pessoas como Max talvez não gostem de mudança. E obviamente ele não está acostumado a não estar num dos melhores carros. Isso não ajuda seu humor a gostar do novo regulamento." Ralf Schumacher foi ainda mais direto nas redes sociais: pediu para Verstappen parar de reclamar e ajudar a Red Bull a trabalhar.

Dois ex-campeões, dois lados opostos da disputa, uma mesma mensagem: o problema não é o regulamento.

O precedente que ninguém deveria ignorar

Existe um aspecto dessa história que me preocupa mais do que os resultados da Red Bull em si: o que acontece quando o piloto mais influente do grid usa sua plataforma para atacar sistematicamente as regras do esporte?

Verstappen não é qualquer piloto. É o tetracampeão mundial, o maior vencedor da era moderna, uma voz que a imprensa amplifica com entusiasmo. Quando ele fala que o regulamento é "fundamentalmente falho", isso ressoa — com fãs, com patrocinadores, com a audiência casual que não sabe a diferença entre o ERS da Red Bull e o da Mercedes.

O levantamento de dados que mostramos na semana passada indica que a temporada 2026 está produzindo corridas competitivas: há quatro equipes diferentes que pontuaram nos top 5 nos primeiros dois GPs, o campo está mais equilibrado do que em qualquer temporada desde 2012. Isso não parece o retrato de um regulamento falho. Parece o retrato de um regulamento que acabou com o domínio de uma única equipe.

E aí está a questão que vale fazer em voz alta: Verstappen estaria reclamando das regras se a Red Bull estivesse vencendo? A resposta não precisa ser respondida. Todo mundo já sabe qual é.

A diferença entre crítica legítima e projeção

Quero ser justa aqui, porque Verstappen levanta alguns pontos válidos sobre o comportamento errático da energia nos novos carros. Liam Lawson, da Racing Bulls, apontou um risco de segurança real relacionado às diferenças de velocidade entre carros que estão recuperando energia e os que estão acelerando — um problema de percepção que pode levar a acidentes. Isso merece ser debatido. A FIA está ciente e trabalhando em ajustes.

Mas existe uma diferença enorme entre apontar um problema técnico específico com evidência e dados — o que os engenheiros e os pilotos deveriam fazer — e declarar o regulamento inteiro "fundamentalmente falho" em entrevista após entrevista, com a câmera ligada e o microfone aberto, enquanto o seu carro falha por motivos que têm tudo a ver com a sua unidade de potência e nada a ver com a regulamentação geral.

A crítica legítima contribui. A projeção apenas alimenta o ruído.

Max Verstappen é um dos maiores talentos que a Fórmula 1 já produziu. Quando tiver um carro à altura do seu talento, provavelmente voltará a vencer. Mas enquanto isso não acontece, talvez valha a pena parar de olhar para a FIA e começar a olhar com mais atenção para a fábrica em Milton Keynes.


Carla Ribeiro é colunista do Quinto Motor e publica toda segunda-feira na coluna Segunda da Carla.