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Haas, 4ª do mundo: o que a pausa de abril decide antes de Miami

Com 18 pontos e a 4ª posição no Construtores após três GPs, a Haas é a maior surpresa de 2026. A pausa forçada de abril — e as mudanças de regulamento que vêm com ela — pode redesenhar o tabuleiro antes de Miami.

PorFernando Almeida
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Haas, 4ª do mundo: o que a pausa de abril decide antes de Miami
Foto: Autosport / Reprodução — Oliver Bearman ao volante da Haas VF-26, a equipe surpresa da temporada 2026

A Haas tem 18 pontos. A Alpine tem 16. A Red Bull tem 16. A Racing Bulls tem 14. A maior equipe do paddock em termos de orçamento e tradição recente aparece empatada em quinto no campeonato de construtores depois de três Grandes Prêmios.

Isso é a Fórmula 1 em 2026. E no meio de tudo isso, a menor equipe do grid está no 4° lugar do Mundial.

Oliver Bearman em sétimo na Austrália. Bearman em quinto em Xangai — o melhor resultado do fim de semana chinês fora do pódio. Esteban Ocon em décimo no Japão, o único ponto conquistado em Suzuka depois que o próprio Bearman saiu da corrida com um impacto estimado em 50G contra as proteções. Somados, esses resultados valem 18 pontos, e eles colocam Banbury numa posição que ninguém previa ao final dos testes de pré-temporada.

A pergunta que o paddock faz agora, na pausa de abril, é simples: quanto disso vai durar?

O que explica o desempenho da Haas em 2026

A resposta mais honesta é uma combinação de dois fatores que se retroalimentam: a unidade de potência da Ferrari e a gestão de pneus.

O motor Ferrari de 2026 chegou como um dos mais bem equilibrados da nova era híbrida — menos problemático no perfil de recarga do que outras configurações nos primeiros fins de semana e, sobretudo, menos agressivo na degradação das baterias em condições de corrida real. A Haas, como cliente Ferrari, herda essas vantagens sem carregar o peso do desenvolvimento. Para uma equipe com orçamento limitado, isso é o equivalente a subir num elevador enquanto outros sobem a escada.

Mas a escolha da Ferrari sozinha não explica o 4° lugar. O que diferencia a Haas dos outros clientes Ferrari é a capacidade de gerir os compostos. Bearman, em particular, tem mantido os pneus vivos por mais tempo do que a maioria dos adversários, o que significa que a equipe chega às últimas voltas com borrachas que ainda trabalham. Em Xangai, onde o caos e a degradação redefiniram a hierarquia a cada stint, esse diferencial ficou explícito no ritmo de Bearman ao longo dos 56 giros.

O timing das decisões internas também contribuiu: a Haas investiu de forma desproporcionalmente grande no entendimento das novas regras aerodinâmicas 2026, em detrimento de melhorar o carro 2025. Essa aposta, criticada na temporada passada, agora começa a fazer sentido na tabela.

A pausa de abril e o tabuleiro que pode mudar

O calendário ajudou a Haas a chegar até aqui — mas pode complicar as coisas daqui para frente.

As etapas do Bahrein e da Arábia Saudita foram canceladas, e a Fórmula 1 vai de Suzuka direto para Miami, com quase cinco semanas de intervalo entre os dois eventos. Para as grandes equipes, esse tempo vale recursos de túnel de vento, simulações em CFD e upgrades de carro. Para a Haas, vale menos: a equipe opera abaixo do teto de gastos regulamentados por necessidade, e não vai a Miami com um pacote de atualizações comparável ao da Ferrari ou da Mercedes.

Há ainda outro fator: a reunião convocada pela FIA para 9 de abril. Na pauta, estão seis propostas de mudança no regulamento de 2026, com implementação imediata para Miami. Uma das mais discutidas envolve o limite de super-clipping — a potência elétrica máxima nas retas. Se esse limite for aumentado, a diferença bruta entre os carros fica mais visível, e equipes que compensam limitações aerodinâmicas com consistência de pneu podem sentir o impacto.

O chefe de equipe Ayao Komatsu foi reservado quando perguntado sobre o potencial efeito dessas mudanças. "Vamos esperar o que a FIA decide e adaptar. Já mostramos que conseguimos adaptar." É uma resposta que revela tudo sem entregar nada.

Miami como prova de fogo do projeto Haas

O Autódromo Internacional de Miami combina longas curvas de alta velocidade com chicanes lentas, criando variação térmica nos compostos e favorecendo carros com boa distribuição de carga aerodinâmica. Em anos anteriores, foi um circuito onde as equipes da frente dominaram com facilidade. A nova geração de carros com piso ativo pode mudar essa equação — ou confirmá-la.

A Haas vai descobrir a resposta em menos de quatro semanas.

O que a equipe tem a favor: Bearman chega a Miami como um dos pilotos em melhor forma da temporada. Mesmo em Suzuka, antes do acidente, havia superado Ocon na qualificação em condições úmidas e estava posicionado para pontuar. Ocon, por sua vez, tem sido consistente fora dos fins de semana de destaque — e em 2026, um ponto em P10 num grid desta qualidade não é sorte, é resultado de não errar quando outros erram.

Após três corridas, a Haas tem feito exatamente o que uma equipe com poucos recursos precisa fazer para se manter acima: minimizar os erros próprios, maximizar as janelas de oportunidade e aproveitar quando os grandes tropeçam. Em Miami, com regulamento possivelmente revisado e os times grandes trazendo pacotes novos, essa fórmula será testada de verdade.