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Três corridas, um abismo: os dados do campeonato F1 2026 após o Japão

Mercedes com 86,5% do máximo de pontos possíveis. Verstappen em nono. Haas na quarta posição do Construtores. Lucas Kim coloca os números do campeonato 2026 em perspectiva depois de Suzuka.

PorLucas Kim
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Três corridas, um abismo: os dados do campeonato F1 2026 após o Japão
Ilustração — quadro do campeonato F1 2026 após três corridas: lacunas históricas se abrem no início da temporada

Três corridas disputadas. Dezesseis ainda por vir — Miami já no calendário para 3 de maio, depois da lacuna deixada pelas etapas canceladas do Bahrein e da Arábia Saudita. O resultado de Suzuka está fresco, mas os números que ele gerou no campeonato merecem atenção separada: a temporada 2026 já exibe distâncias que raramente aparecem tão cedo numa temporada de Fórmula 1.

O que os números dizem após três corridas

O ranking dos construtores é o ponto de partida mais revelador. Em três rodadas, cada dupla de pilotos pode pontuar até 52 vezes por fim de semana — dois pilotos, máximo de 26 pontos cada. Com três corridas disputadas, o máximo teórico por equipe é 156 pontos.

PosConstrutorPontos% do máximo
1Mercedes13586,5%
2Ferrari9057,7%
3McLaren4629,5%
4Haas1811,5%
5Alpine1610,3%
6Red Bull1610,3%
7Racing Bulls149,0%
8Audi21,3%
9Williams21,3%
10Cadillac00%
11Aston Martin00%

A Mercedes somou 135 dos 156 pontos disponíveis. Para chegar a esse número, foram precisas três vitórias, três segundos lugares e pontos de volta mais rápida em pelo menos uma etapa. É o desempenho de uma equipe sem margem para erro — e até aqui, quase não cometeu nenhum.

A Red Bull acumulou 16 pontos. Os mesmos 16 da Alpine. Menos que os 18 da Haas. Os campeões dos últimos três anos, com o maior orçamento do paddock até 2024, estão em sexto lugar no Construtores.

Nos pilotos, o quadro é igualmente contundente:

PosPilotoEquipePontos
1Kimi AntonelliMercedes72
2George RussellMercedes63
3Charles LeclercFerrari49
4Lewis HamiltonFerrari41
5Lando NorrisMcLaren25
6Oscar PiastriMcLaren21
7Oliver BearmanHaas17
8Pierre GaslyAlpine15
9Max VerstappenRed Bull12
10Liam LawsonRacing Bulls10

Max Verstappen está em nono. Atrás de Oliver Bearman. Atrás de Pierre Gasly. O quadricampeão que venceu 54 corridas entre 2021 e 2025 acumula 12 pontos em três etapas — equivalente a duas quintas colocações e um quinto lugar.

O colapso da Red Bull em perspectiva histórica

O que torna o dado da Red Bull ainda mais impactante é o contexto. A equipe terminou os campeonatos de 2023, 2024 e 2025 na liderança do Construtores. Em 2023, Verstappen venceu 19 das 22 corridas. Em 2025, mesmo com maior pressão da Ferrari, a Red Bull sustentou o título.

Em 2026, algo quebrou. Os problemas técnicos do RB22 — peso acima do limite e falhas no ERS — cobraram preço imediato. O regulamento híbrido novo exige que o carro e o sistema de energia trabalhem como um bloco, e o RB22 ainda não encontrou esse equilíbrio.

Para ter uma referência histórica: em 2014, quando a Mercedes inaugurou a era híbrida com uma vantagem semelhante, a Red Bull estava pelo menos dentro das primeiras quatro posições do Construtores após três corridas. Em 2026, está em sexto — atrás da Haas e da Alpine, equipes com um terço do orçamento.

A comparação mais próxima talvez seja a McLaren de 2009, que passou de campeã (2008) para irrelevante ao mudar de era técnica. A diferença é que a McLaren de 2009 estava no top-5 do Construtores após três corridas. A Red Bull de 2026 não está.

A dupla da Mercedes e o campeonato dentro do campeonato

A liderança de Kimi Antonelli (72 pontos) sobre George Russell (63) em três corridas esconde uma dinâmica interna que vai definir este campeonato. Antonelli é o piloto mais jovem a liderar o Mundial — 19 anos e poucos meses, batendo o recorde que pertencia a Lewis Hamilton desde 2007.

Russell tem mais experiência, maior capacidade comprovada em corridas molhadas e situações extremas, e um histórico de consistência que Antonelli ainda precisa construir. A diferença de nove pontos é pequena o suficiente para se reverter em um único fim de semana.

Nenhum dos dois pode relaxar: a Ferrari tem Leclerc (49) e Hamilton (41) fechando a segunda linha — dois pilotos com 12 títulos mundiais combinados entre eles. Um safety car na hora errada, uma estratégia mal executada, e os números mudam rapidamente.

O que os dados sugerem é que, se o carro da Mercedes mantiver o nível atual, o campeonato de pilotos vai se decidir internamente. Não em batalhas contra Ferrari ou Red Bull — mas entre os dois pilotos de prata.

Haas e o novo equilíbrio do meio-campo

Olhar apenas para a briga do topo é subestimar o que o meio-campo revelou em três corridas. A Haas está em quarto no Construtores com 18 pontos. Oliver Bearman marcou pontos nas três corridas — o jovem britânico, que emergiu como revelação ainda na China, está em sétimo lugar no Mundial de Pilotos.

A Alpine também surpreende com Pierre Gasly em oitavo (15 pontos). A Racing Bulls, com Liam Lawson em décimo (10 pontos), completa um conjunto de equipes médias que estão pontuando mais regularmente do que a Red Bull.

Isso tem uma explicação técnica: o regulamento 2026, com a nova unidade de potência e as regras aerodinâmicas completamente reescritas, comprimi o campo no médio prazo. Equipes com estruturas menores, mas que tomaram as decisões técnicas certas no desenvolvimento, podem competir de igual para igual com gigantes que erraram a direção.

A Red Bull e a Aston Martin (zero pontos em três corridas) representam o outro extremo: equipes grandes que pagam caro pelo erro técnico no regulamento novo.

O que esperar até Miami

O próximo GP é em Miami, em 3 de maio. Há uma pausa de mais de cinco semanas — tempo considerável para desenvolvimento. Historicamente, equipes que dominam as primeiras três corridas raramente perdem a liderança ao longo de uma temporada completa.

Os dados de 2014 mostram: a Mercedes saiu de dominante em março e continuou dominante até novembro. Em 2023, a Red Bull fez o mesmo. A lógica da engenharia favorece quem já encontrou a fórmula certa: é mais fácil refinar um conceito vencedor do que corrigir um conceito errado.

Para a Red Bull, cinco semanas são suficientes para introduzir melhorias significativas — mas não para fechar 119 pontos de distância no Construtores. O mais realista é limitar os danos: sair de Miami dentro das primeiras quatro posições e reconstruir aos poucos.

Para Verstappen em particular, o campeonato de pilotos ainda tem 418 pontos disponíveis. Matematicamente, a temporada está aberta. Mas cada corrida que passa sem vitória aumenta a distância que precisará recuperar — e o número de variáveis que precisam correr a seu favor.

Os números de 2026 até aqui descrevem uma hierarquia clara. O que a segunda metade da temporada dirá é se essa hierarquia é permanente ou transitória. Miami, em maio, começa a responder.


Fontes: RacingNews365, Formula1.com, Motorsport.com