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F1 2026 em dados: o que os campeonatos revelam após dois GPs

Dois GPs disputados, Mercedes lidera com 31 pontos de folga, McLaren está em colapso e Verstappen fica atrás de Bearman. Lucas Kim analisa os números da temporada.

PorLucas Kim
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F1 2026 em dados: o que os campeonatos revelam após dois GPs
Ilustracao — A temporada 2026 já tem um quadro claro de poder: Mercedes na frente, Ferrari tentando responder, resto do grid ainda se encontrando

Dois Grandes Prêmios. Trinta e seis meses de expectativa para a nova era dos motores híbridos 50/50. E o que os números nos dizem até agora é um roteiro que poucos previam: a Mercedes voltou ao domínio antes de o segundo GP terminar, a McLaren bicampeã sequer conseguiu largar em Xangai, e um jovem de 18 anos chorou no rádio com a primeira vitória na categoria. Vamos aos dados.

O que os campeonatos revelam

Campeonato de Pilotos — após 2 GPs + 1 sprint

PosPilotoEquipePontos
1George RussellMercedes51
2Kimi AntonelliMercedes47
3Charles LeclercFerrari34
4Lewis HamiltonFerrari33
5Oliver BearmanHaas17
6Lando NorrisMcLaren15
7Pierre GaslyAlpine9
8Max VerstappenRed Bull8
9Liam LawsonRacing Bulls8

A liderança de Russell sobre Antonelli é de apenas 4 pontos — uma vitória muda tudo. O gap de 17 pontos entre a segunda fila Mercedes e o duo Ferrari parece expressivo, mas com 20 corridas ainda pela frente, é administrável.

O dado mais perturbador: Max Verstappen, tricampeão mundial em exercício, está na oitava posição com 8 pontos. Em dois GPs, o holandês somou menos da metade de um Leclerc ou Hamilton. Isso não tem precedente em sua carreira.

Campeonato de Construtores

PosEquipePontos
1Mercedes98
2Ferrari67
3Haas17
4Red Bull~12
5Alpine~10

A Mercedes tem 31 pontos de vantagem sobre a Ferrari. Para referência: uma vitória com volta mais rápida vale 26 pontos. A Ferrari precisaria vencer enquanto a Mercedes marca zero em duas corridas consecutivas só para igualar. E a Mercedes tem dois pilotos na luta — o que torna esse cenário matematicamente improvável no curto prazo.

Mercedes: domínio técnico ou vantagem transitória?

Os números da equipe de Brackley são imponentes. Em dois GPs (mais uma sprint race), Russell e Antonelli somam 98 pontos no construtores — quase o dobro da Ferrari. O W16 se destaca especialmente nos setores de alta velocidade, onde o powertrain híbrido 50/50 do novo regulamento entrega potência elétrica constante sem o lag que afeta parte do grid.

A vitória de Russell na Austrália e o 1-2 em Xangai contam a mesma história com dados diferentes: velocidade de ponta competitiva, gestão de pneus superior e capacidade de variar estratégia sem perder posição. Não é coincidência. É interpretação de regulamento.

A questão que fica: a vantagem é estrutural ou transitória? O DRS ativo e a aerodinâmica X-mode introduzidos em 2026 ainda estão sendo aprendidos por todas as equipes. A gap atual pode refletir tanto o trabalho técnico da Mercedes quanto os erros de desenvolvimento do resto do grid. As próximas três corridas vão dizer.

Ferrari: perto em distância, longe em execução

33 e 34 pontos para Hamilton e Leclerc. Terceiro e quarto lugares. Pelo menos um pódio por GP. Em qualquer outra temporada, seria um começo sólido. Contra essa Mercedes, parece insuficiente.

O retorno de Hamilton à Ferrari — prometido como histórico — ainda busca seu momento definitivo. O pódio em Xangai foi o primeiro em 26 largadas com as cores da Scuderia: 26 chances para subir ao pódio, 1 concretizada. Os dados de telemetria da Ferrari mostram que o SF-26 tem ritmo de corrida competitivo — melhor que na Austrália — mas o classificatório ainda é fraco para a vantagem de chassi que a equipe afirma ter.

Leclerc tem sido mais rápido que Hamilton no classificatório, mas menos eficiente em corrida. Hamilton, por sua vez, parece mais confortável com o carro do que os números de largada sugerem. Uma dinâmica interna que vai definir a temporada.

O colapso que os dados anteciparam: McLaren e Red Bull

A McLaren bicampeã está em crise. A análise de desempenho desde a Austrália já mostrava que a equipe chegou ao novo ciclo regulatório sem entender o pacote elétrico. Em Xangai, a situação atingiu um nível diferente: falha no sistema de energia eliminou Norris e Piastri antes da largada da corrida principal. Dois DNSes por problema sistêmico — não por acidente, não por toque, mas por falha técnica repetida.

Resultado agregado: 15 pontos de Norris (quase todos da sprint) e 3 de Piastri. Uma equipe que terminou 2025 como a mais eficiente do grid começa 2026 atrás de Haas e Alpine nos construtores. O MCL43 simplesmente não está pronto.

Red Bull vive o mesmo pesadelo em outro fuso horário. Oito pontos. Nenhum pódio. Uma aposentadoria em Xangai. Verstappen afirma que o carro "parece errado" desde os primeiros treinos do ano — e os dados corroboram: nenhum Q3 na primeira fila nos dois classificatórios.

Haas e o meio-campo invertido

17 pontos. Haas está em terceiro no campeonato de construtores, à frente de McLaren e Red Bull. Bearman e o desempenho da equipe americana em Xangai confirmaram que a Haas entendeu algo que as grandes equipes ainda buscam: consistência no novo pacote regulatório.

Um número que resume: Bearman tem mais pontos que Verstappen, Norris, Gasly, Piastri e Lawson juntos. A equipe trabalhou durante todo o inverno na integração do powertrain Ferrari-elétrico ao chassi, priorizando confiabilidade sobre velocidade de pico. Por ora, essa escolha está sendo recompensada com pontos reais.

O que os dados dizem sobre Suzuka

O próximo GP é o Japão, em Suzuka, de 27 a 29 de março. É um circuito de alta carga aerodinâmica, sequências de alta velocidade e layout que expõe desequilíbrios de setup — exatamente o tipo de pista em que a Mercedes tem dominado neste início de ano.

Três variáveis a monitorar com dados em Suzuka:

  1. McLaren e Red Bull: cinco semanas de trabalho intenso para duas equipes que estão claramente fora do seu nível esperado. Verstappen historicamente domina Suzuka; se a Red Bull não pontuar bem, o buraco no campeonato fica profundo demais para recuperar cedo.
  2. Antonelli vs. Russell: 4 pontos de diferença entre dois companheiros de equipe que ainda não confrontaram diretamente em corrida limpa. Em Suzuka, isso vai acontecer.
  3. Haas: o desempenho da equipe em circuitos de alta carga vai revelar se a consistência dos dois primeiros GPs é estrutural ou resultado de traçados específicos.

O campeonato de 2026 está longe de definido — com 20 corridas restantes, qualquer coisa pode acontecer. Os dados, porém, dizem o seguinte: a Mercedes está à frente por mérito técnico real e mensurável, a Ferrari é a única com capacidade imediata de desafiar, e o resto do grid está, por ora, numa corrida diferente.

Para Russell e Antonelli, a questão não é se a Mercedes vai dominar. É quem dentro da equipe vai dominar quem.