Red Bull: crise de peso e ERS deixa Verstappen sem respostas
Uma foto vazada do pesaje de Xangai e duas falhas de ERS em dois GPs expõem o tamanho do problema da Red Bull em 2026. Verstappen tem um carro que detesta — e o Japão não vai ser fácil.

Sexta no Paddock. Toda sexta, Fernando Almeida traz o que está além dos comunicados oficiais.
Tem coisas que a Red Bull prefere não discutir em coletiva de imprensa. A foto do pesaje de Xangai é uma delas.
A imagem circulou no paddock na semana seguinte ao GP da China. Tirada na área de pesagem da FIA durante o fim de semana, ela mostraria o RB22 de Max Verstappen com um peso acima do mínimo regulamentar — cerca de 30 quilos além do limite, segundo a interpretação de veículos especializados que tiveram acesso ao registro. A Red Bull não confirmou nem desmentiu publicamente. O silêncio, como de costume, diz muito.
O problema é que a foto foi o menor dos vazamentos. O maior foi o próprio carro.
A equação que não fecha: peso, potência e o RB22
O RB22 chegou à temporada 2026 carregando um problema que as novas regulações tornaram ainda mais cruel: motor mais pesado, bateria maior, e uma filosofia de projeto que, pelo que se vê na pista, não encontrou o equilíbrio certo entre eficiência aerodinâmica e gestão de massa.
Em 2026, cada quilograma extra tem um custo direto de aproximadamente 0,03 segundos por volta. Trinta quilos representariam algo em torno de 0,9 segundo de déficit estrutural — antes mesmo de ligar o motor. É o tipo de gap que não se resolve com acertos de suspensão nem com ajuste de asa.
O que se sabe de forma confirmada é que a Red Bull reconheceu publicamente ter "deficiências significativas" no carro atual. Christian Horner usou exatamente essas palavras depois de Xangai. Max Verstappen foi ainda menos diplomático: "É incrivelmente difícil de dirigir. Cada volta é uma luta."
Vindo do homem que dominou os últimos quatro anos da Fórmula 1, isso não é reclamação. É diagnóstico.
Duas corridas, duas falhas — e um padrão que preocupa
O GP da Austrália trouxe a primeira bandeira vermelha na Red Bull de 2026. Isack Hadjar, o jovem francês que assumiu o lugar de Checo Pérez, abandonou com falha no motor antes de completar metade da prova. Debutante, disse o paddock. Azar, disse a Red Bull.
Xangai devolveu a conta.
Verstappen chegou às 45 voltas do GP da China e o ERS — o sistema de recuperação de energia que é o coração das unidades de potência híbridas de 2026 — entregou os pontos. Falha no circuito de refrigeração do sistema elétrico. Resultado: outro abandono, outra corrida perdida, outro zero na tabela para quem foi campeão mundial por quatro anos seguidos.
Dois DNFs em dois GPs. Dois carros. Dois subsistemas diferentes da unidade de potência. A Red Bull quer que o mundo acredite que foram coincidências. O paddock não está convencido.
O padrão aponta para uma questão de integração entre unidade de potência e chassi — gestão térmica que se agrava em condições de corrida prolongada. Não é o tipo de problema que se resolve com uma peça de reposição no avião para Suzuka.
No levantamento que fizemos após dois GPs, a Red Bull aparecia com zero pontos no campeonato de construtores. Mercedes, Ferrari e até a Haas estavam à frente. Para uma equipe que venceu 21 corridas em 2023, é um número que dói.
Verstappen: o campeão que detesta o próprio carro
Existe uma tradição não escrita no paddock: pilotos reclamam do carro apenas quando sabem que a culpa não é deles. Quando a culpa é deles, ficam quietos.
Verstappen não está quieto.
O holandês tem sido incomum na sua franqueza desde os testes de pré-temporada no Bahrein. Ele não fala em "desenvolvimento" nem em "pontos de aprendizado". Fala em um carro que exige compensação constante, que não transmite confiança, que pune qualquer hesitação. E quando Verstappen diz que está lutando com um F1, vale prestar atenção — o homem passou três anos fazendo o impossível parecer rotina com o RB19.
Nos bastidores, a relação entre o piloto e a engenharia passa por um momento delicado. Não há conflito aberto — seria ingênuo esperar isso da Red Bull. Mas há tensão entre o que Verstappen quer (mudanças rápidas e radicais) e o que a equipe pode entregar (um processo que leva tempo e iterações). Com o GP do Japão a uma semana de distância, esse tempo está se esgotando.
O que esperar da Red Bull em Suzuka
Suzuka é especial para a Red Bull. Verstappen venceu as últimas quatro edições do GP do Japão. O traçado lendário é um de seus favoritos — rápido, técnico, sem margem para erros. Em condições normais, seria o tipo de circuito onde a equipe poderia esconder parte dos problemas atrás do talento do piloto.
Mas 2026 não é uma temporada normal.
A previsão de chuva para o fim de semana no Japão pode embaralhar o grid de uma forma que nem favorece nem prejudica a Red Bull de forma previsível. O que é certo é que o carro precisa funcionar — e funcionar durante toda a corrida, algo que ainda não aconteceu nessa temporada.
Se a Red Bull chegar a Suzuka com outra falha mecânica, a conversa sobre a crise vai ganhar uma dimensão que nenhuma nota de imprensa vai conter. O GP da China mostrou que Mercedes e Ferrari têm carros rápidos e confiáveis. A Red Bull tem um ex-tetracampeão com um carro que ele mesmo não confia plenamente.
No paddock, a pergunta já não é mais "quando a Red Bull vai reagir". É quanto tempo Verstappen ainda está disposto a esperar pela resposta.
Sexta no Paddock é publicada toda sexta-feira por Fernando Almeida, correspondente europeu do Quinto Motor.