Briatore aposta em Colapinto: dia extra em Silverstone e tudo a perder em Miami
Com 1 ponto em três corridas contra 15 do companheiro Gasly, Colapinto teve o dia de filmagem da Alpine para si — e Briatore deixou claro que há muito trabalho a fazer antes de Miami.

Tem uma coisa que Flavio Briatore não faz quando está satisfeito: ele não agenda trabalho extra. Quando a Alpine usou seu segundo dia de filmagem da temporada — os 200km permitidos pelo regulamento para cada equipe — optou por colocar Franco Colapinto no cockpit e não Pierre Gasly. A razão, segundo fontes próximas ao paddock europeu, não tem nada a ver com Gasly precisar descansar. É o contrário: o francês está tão bem que não precisa dos quilômetros. O argentino precisa.
Três corridas, 1 ponto. Colapinto cruzou a linha em P10 na China, colheu seu único ponto da temporada e, desde então, o quadro não melhorou. Na Austrália, 14° lugar. No Japão, 16°, com Gasly oito posições à frente. Em todos os oito segmentos de classificação e corrida realizados até agora, o francês saiu melhor. É o começo mais difícil de Colapinto desde que chegou à Fórmula 1.
A lacuna que Gasly deixou exposta
A diferença entre os dois vai muito além dos pontos. Gasly chegou ao Q3 nas duas últimas classificações — em ambas largando de P7. Colapinto não passou do Q2 em nenhuma das três rodadas. Em Xangai, onde a Alpine teve seu melhor fim de semana com os dois no top 10, a diferença de qualificação era visível na telemetria: entrada de curva com mais confiança, mais velocidade de contorno, menos correções de volante. Isso é sensação de ponta dianteira — e é exatamente o que falta no A526.
O carro de Enstone tem uma deficiência bem documentada: a frente não responde com a precisão que um piloto com o estilo de Colapinto precisa para atacar no limite. Para Gasly, experiente o suficiente para trabalhar ao redor das fraquezas do carro, é um obstáculo gerenciável. Para o argentino, ainda construindo seu repertório na categoria, é uma barreira mais concreta — e mais cara por volta.
A Alpine rejeitou, em nota oficial, as teorias de sabotagem que circularam nas redes após o GP do Japão. O incidente com Bearman em Suzuka, onde o carro de Colapinto estava mais devagar por diferença de estado energético e foi atingido a 50G, alimentou especulação desnecessária. A equipe confirmou paridade de equipamentos para os dois pilotos, com exceção de componentes menores de baixo impacto na China ligados a uma troca de caixa de câmbio.
O dia em Silverstone: upgrades e mais tempo no cockpit
A resposta de curto prazo chegou no dia de filmagem em Silverstone. Numa pista que Colapinto conhece bem — foi ali que ele acelerou sua curva de aprendizado na Fórmula 2 —, o argentino rodou os 200km liberados pelo regulamento testando o pacote de upgrades aerodinâmicos que a Alpine planeja estrear no GP de Miami (1–3 de maio).
A equipe passou toda a pausa de abril trabalhando nas simulações. Os dados de túnel de vento e CFD mostraram resultados "promissores" — palavra escolhida pela própria Alpine ao comunicar os objetivos do dia. Mas CFD não substitui asfalto. O teste em Silverstone serviu para confirmar se o que o computador projetou corresponde ao que o piloto sente no carro. Para o time, eram dados de desenvolvimento; para Colapinto, eram quilômetros.
Briatore foi direto ao justificar a escolha. Gasly está em "excelente forma" — não há o que recalibrar. Colapinto é quem mais se beneficia de mileagem adicional. No paddock, a leitura é que o italiano está gerenciando o argentino com firmeza sem perder a paciência — algo incomum para quem tem histórico de ser exigente muito cedo com seus protegidos. Segundo o F1 Oversteer, Gasly domina o confronto interno em todas as oito sessões disputadas até agora.
Miami como primeiro teste de verdade
O GP de Miami chega em dez dias. É o quarto GP da temporada e o primeiro sprint weekend do calendário — sprint no sábado, corrida principal no domingo, menos sessões de treino e menos margem para errar a configuração. Para uma equipe confirmando upgrades aerodinâmicos, o desafio é duplo.
Para Colapinto, é também a melhor janela para mostrar que o problema não é ele. Se o upgrade entregar mais sensação de ponta dianteira — como a Alpine projeta —, o traçado de Miami, com suas curvas de médio e alta velocidade, pode ser o cenário certo para o argentino mostrar seu ritmo real. As mudanças no regulamento de energia que entram em vigor em Miami também prometem carros mais previsíveis e menos dependentes do gerenciamento elétrico, o que pode facilitar a leitura do A526 para quem ainda está calibrando os limites do carro.
A Alpine é a quinta colocada no campeonato de construtores com 16 pontos — igualada com a Red Bull, à frente no countback. O contexto coletivo é favorável. O espaço individual de Colapinto está onde sempre esteve: nas posições que ele ainda não alcança. O Q3. Os pontos fora do top 10. A diferença de ritmo que Gasly fecha toda corrida.
Briatore apostou no argentino quando poucos apostavam. A pausa de abril foi usada para dar a Colapinto mais ferramentas. Miami vai mostrar se elas chegaram na hora certa.