Pilotos e FIA fecham acordo: o que muda no regulamento antes de Miami
Na véspera do voto decisivo (20/abr), pilotos e FIA chegaram a entendimento sobre as mudanças mais urgentes no regulamento 2026. Qualificação flat-out e redução das velocidades de fechamento são as prioridades.

O regulamento 2026 enfrenta sua primeira reforma urgente. Na véspera do voto decisivo marcado para esta segunda-feira (20 de abril), FIA, equipes, pilotos e fabricantes de motores chegaram a um ponto de entendimento sobre as mudanças prioritárias no gerenciamento de energia. O acordo, inédito pela velocidade com que foi construído, sinaliza que o esporte reconhece que algo fundamental precisa ser corrigido antes mesmo do GP de Miami (1–3 de maio).
O caminho até aqui não foi simples. O problema surgiu desde a abertura da temporada: carros que, nas retas mais longas, desligam efetivamente o motor elétrico enquanto o piloto mantém o acelerador a fundo. O fenômeno chamado de superclipping transformou a qualificação em um exercício de aritmética — e o momento mais perigoso do calendário 2026 veio no Japão.
Da batida de Bearman à mesa de negociação
O acidente de Oliver Bearman em Suzuka expôs a fragilidade do regulamento por um ângulo que não havia sido completamente antecipado. O piloto da Haas saiu da pista ao tentar desviar do Alpine de Franco Colapinto — que trafegava cerca de 50 km/h mais devagar pela diferença de estado energético entre os dois carros. O impacto foi de 50G contra as barreiras.
Carlos Sainz revelou que os pilotos já haviam se reunido com o diretor de monoposto da FIA, Nikolas Tombazis, em Suzuka, onde escutaram a confirmação de que mudanças seriam feitas. Desde então, três semanas de negociação intensiva produziram o que até poucos dias atrás parecia improvável: um acordo entre pilotos e FIA sobre quais são as prioridades.
Os dois pontos centrais do entendimento são diretos: qualificação flat-out (sem lift-and-coast obrigatório) e redução das velocidades de fechamento entre carros em estados energéticos diferentes. São dois lados do mesmo problema — e ambos têm implicações técnicas e de segurança que as equipes passaram semanas discutindo.
A análise dos dados de superclipping nas três primeiras corridas, publicada aqui no portal, mostrou exatamente como a diferença entre equipes pode chegar a 53 km/h em uma única curva. Esses números estão no centro das negociações.
O que entra no voto desta segunda-feira
A reunião de 20 de abril não é um brainstorm — é um voto. Tombazis confirmou que as propostas já foram discutidas nos níveis técnicos nas semanas anteriores e que a segunda-feira é o momento de ratificar consenso, não de abrir novas discussões. Segundo o PlanetF1, o encontro terá representação de todos os stakeholders: chefes de equipe, FIA, gestão da F1 e fabricantes de motores.
As mudanças que devem ser aprovadas se concentram em três frentes:
1. Redução da recuperação de energia na qualificação O limite atual é de 9 megajoules por volta de qualificação. A FIA já havia reduzido para 8 MJ antes do Japão — uma intervenção emergencial que se revelou insuficiente. A discussão agora é sobre ir para 6 MJ, o que custaria tempo de volta mas eliminaria o ciclo de gerenciamento frenético que faz da qualificação um exercício de matemática em vez de pilotagem.
2. Aumento do superclipping A proposta, introduzida pelo chefe da McLaren, Andrea Stella, ainda em Bahrein, é aumentar o limite de recuperação em modo superclipping de 250 kW para 350 kW. Com mais energia recuperável em plena aceleração, os carros precisariam fazer menos economia nas zonas de frenagem — tornando as velocidades de fechamento mais previsíveis e os diferenciais entre carros consideravelmente menores.
3. Ajuste nas zonas de aerodinâmica ativa O sistema de aerodinâmica ativa de 2026 também entra na revisão. Modificar onde e quando o modo de reta pode ser ativado reduziria os diferenciais de velocidade que tornaram Suzuka perigosa e que nenhum regulamento deveria permitir.
Depois do voto presencial desta segunda, haverá um e-vote formal nos dias seguintes. A ratificação final cabe ao Conselho Mundial de Automobilismo da FIA (WMSC). O prazo é o GP de Miami — que traz um ingrediente extra de pressão: é o primeiro sprint weekend da temporada.
O que está em jogo além das mudanças técnicas
A velocidade desse processo é incomum na F1. Regulamentos aprovados anos antes raramente são revistos em poucas semanas — e quando são, costuma ser por pressão de um incidente gravíssimo. O acidente de Bearman foi o catalisador, mas a insatisfação dos pilotos com a qualificação de 2026 antecede Suzuka.
O que esta semana mostrou é que o esporte aprendeu, ao menos por ora, que transparência no processo de revisão é mais útil do que silêncio defensivo. A sequência de reuniões que começou em 9 de abril, que parecia ser o primeiro passo de um processo lento, produziu um cronograma apertado que está sendo cumprido.
Miami chegará com carros diferentes dos que saíram do Japão. Quantos megajoules de diferença separam um problema de um espetáculo — essa é a pergunta que Tombazis precisa responder antes de segunda-feira às 18h.