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Tombazis rebate Verstappen às vésperas de Miami: 'F1 não está na UTI'

Verstappen diz que o regulamento 2026 é 'fundamentalmente errado' mesmo com as mudanças aprovadas. Nikolas Tombazis respondeu com a comparação que vai dominar o paddock em Miami: a F1 'não está em UTI', só precisa de vitamina.

PorRicardo Mendes
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Tombazis rebate Verstappen às vésperas de Miami: 'F1 não está na UTI'
Foto: PlanetF1 / Reproducao — Verstappen em Suzuka: o piloto da Red Bull mantém crítica ao regulamento 2026 mesmo após a reforma aprovada para Miami

A FIA aprovou em 20 de abril a maior reforma do regulamento 2026 desde que ele estreou em Melbourne. Max Verstappen leu o pacote, viu superclipping reduzido, luzes de alerta na traseira e FP1 estendido para 90 minutos — e disse que continua tudo "fundamentalmente errado". Quatro dias depois, Nikolas Tombazis, diretor de monolugar da FIA, escolheu uma metáfora médica para responder: a Fórmula 1 "não está na UTI". O choque entre o tetracampeão e o regulador é a notícia política da semana de Miami.

A declaração de Tombazis foi feita em entrevista a veículos europeus na quinta-feira, 23 de abril, e republicada pela PlanetF1 nos dias seguintes. Em resposta direta a Verstappen, o diretor disse: "É importante saber que ninguém acreditava que o paciente, nosso esporte, estava em UTI. Havia problemas evidentes a corrigir, mas não estávamos em terapia intensiva. Talvez o paciente precise se exercitar um pouco mais e comer duas maçãs por dia, melhorar e tomar algumas vitaminas." A escolha do vocabulário não foi acidental — era a contra-narrativa de uma FIA que precisa defender a credibilidade do projeto regulatório dias antes do GP de Miami servir como vitrine das mudanças.

O que Verstappen efetivamente disse

A crítica do piloto da Red Bull veio em duas frentes. Primeiro, no boletim oficial divulgado pela FIA com as mudanças aprovadas, Verstappen reconheceu que houve "esforço positivo" das partes envolvidas. Segundo, em entrevista logo a seguir, ele acrescentou a ressalva que virou manchete: "O problema é simplesmente que dá para ajustar um pouco essas regras, mas algo está fundamentalmente errado. Nem todo mundo vai admitir publicamente, mas é verdade." A solução proposta pelo holandês foi explícita: retornar a motores V10 ou V8, configurações abandonadas pela Fórmula 1 em 2005 e 2013, respectivamente.

A posição não é nova. Verstappen vinha questionando o regulamento desde antes da temporada começar e intensificou a cobrança ao longo do início da temporada, com a Red Bull em sexto lugar no Mundial de Construtores e o piloto em nono na classificação individual, com 12 pontos contra os 65 de Kimi Antonelli, líder da temporada pela Mercedes. Para a FIA, o problema era que essa narrativa começou a contaminar a percepção pública sobre o regulamento — daí a intervenção do diretor de monolugar.

A defesa de Tombazis: 'fora da zona de conforto'

A justificativa técnica de Tombazis para o pacote aprovado tem dois eixos. O primeiro é que as mudanças "não vão fundamentalmente mudar o cenário" — uma admissão direta de que a hierarquia construída entre Mercedes, Ferrari e McLaren nas três primeiras corridas não deve ser revolucionada pela reforma. O segundo é a defesa do processo: segundo o diretor, foi necessário tirar partes interessadas da "zona de conforto" antes de chegar a um consenso real. Em entrevista replicada pela Motorsport Week, Tombazis confirmou que algumas equipes resistiram às propostas iniciais — uma referência velada à Mercedes, atual dominante, que tinha o menor incentivo para mexer no equilíbrio energético.

A FIA também revelou um detalhe importante: equipes rejeitaram uma proposta de corte direto de potência. A versão final do pacote ficou centrada no manejo do MGU-K — recolhimento máximo de 8 MJ caindo para 7 MJ por volta, potência de superclipping subindo de 250 kW para 350 kW e deploy em corrida limitado a 150 kW de boost extra. As alterações foram detalhadas no anúncio formal da Federação, aprovadas por unanimidade em 20 de abril e entram em vigor em Miami no dia 1º de maio.

Por que Miami virou referendo

Miami não é só o quarto round da temporada — é o teste de credibilidade do regulamento revisado. As três primeiras corridas geraram telemetria suficiente para a FIA documentar quedas de velocidade de até 53 km/h em cenários de superclipping pesado e diferenciais energéticos de mais de 500 cavalos entre carros próximos. Foi esse conjunto de dados que convenceu a maioria do paddock a aceitar mudanças que normalmente levariam meses de debate técnico. Se Miami revelar que o ajuste reduziu o problema sem alterar a hierarquia, Tombazis terá ganho a discussão pública com Verstappen. Se o paciente continuar tossindo, as duas maçãs por dia podem virar quimioterapia.

A FP1 estendida para 90 minutos na sexta-feira é o primeiro indicador concreto que a FIA terá. Equipes vão chegar com pacotes novos — McLaren com carro essencialmente reformulado, Ferrari com piso atualizado, Red Bull com a versão própria da "Macarena" copiada da Ferrari — e todas operando sob limites energéticos diferentes dos de Suzuka. A telemetria do treino livre é o que vai dizer se as duas maçãs estão funcionando.

A guerra de palavras entre o tetracampeão e o regulador não vai se encerrar com a corrida de domingo. Mas, depois de Miami, ambos os lados vão ter dados em vez de retórica. E é com dados que regulamentos vivem ou morrem na Fórmula 1.