Miami é a prova dos nove: Ferrari falhou Hamilton no Japão
Hamilton chamou o Japão de 'terrível'. Tinha razão — e o problema vai além do fim de semana. Ferrari chega em Miami com meio carro novo e uma promessa enorme. Carla Ribeiro diz o que está em jogo.

Lewis Hamilton foi para a Ferrari para ganhar. Não para marcar pontos. Não para "aprender o carro". Não para "construir para o futuro". Ele foi para ganhar o oitavo título — o que faltava para o epílogo perfeito de uma carreira que já não precisa de mais nada para ser histórica. O Japão quebrou esse roteiro de um jeito que não dá para fingir que não aconteceu: Hamilton perdeu posições para Leclerc, Russell e Norris porque a Ferrari simplesmente perdeu potência durante a corrida. Ele chamou o fim de semana de "terrível". E tinha razão — mas o problema vai além do fim de semana.
A Ferrari tem cinco semanas, um pacote de upgrades descrito internamente como o maior da temporada e um teste secreto em Monza. Miami, a partir de 1º de maio, vai dizer se a Scuderia é capaz de honrar o que prometeu quando convenceu o heptacampeão a trocar a Merced pelo vermelho.
O que o Japão revelou sobre o SF-26
Os números do Japão são difíceis de ignorar. Hamilton terminou em sexto, Leclerc em terceiro — com o mesmo carro. A diferença não foi de talento. Foi de confiabilidade. Hamilton sofreu perda de potência num momento crítico: a relargada após o safety car acionado pelo acidente de Oliver Bearman, exatamente quando os pilotos empurram ao limite. Ele tinha ficado em terceiro no relançamento, ultrapassando Russell. Saiu de Suzuka em sexto.
No campeonato, a situação é a seguinte: Antonelli lidera com 72 pontos, Hamilton está em quarto com 41. A Ferrari soma 90 pontos nos construtores — o segundo lugar, mas a 45 pontos da Mercedes. Não é uma diferença impossível de recuperar em 20 corridas. É, porém, uma diferença que não se recupera se o SF-26 continuar chegando ao fim das corridas com menos potência do que saiu do grid.
A equipe reconhece que tem um déficit de cerca de 20 cavalos no motor em relação à Mercedes. Vinte cavalos na F1 2026, com o super clipping transformando retas em roleta-russa de velocidade, não são detalhe — são questão de posição nos metros finais de cada reta. Nos dados das três primeiras corridas, a Ferrari ficou entre os que mais perdem tempo no fenômeno do super clipping.
A Ferrari não ficou parada — e isso é o mínimo
Quero ser justa: a Ferrari usou a pausa forçada pelos cancelamentos do Bahrein e da Arábia Saudita melhor do que a maioria das equipes. Enquanto Red Bull debatia se devia ou não abandonar o RB22, a Scuderia focou numa coisa: chegar em Miami diferente.
O pacote de upgrades para Miami inclui novo assoalho, asa dianteira otimizada, elementos Halette no halo finalmente dentro das normas da FIA (foram questionados na China), melhorias de refrigeração e redução de peso. A equipe também realizou um dia de filmagem em Monza, em 21 de abril, com Hamilton e Leclerc testando a especificação 2.0 do SF-26 em condições controladas. É muito trabalho em muito pouco tempo.
Além disso, Hamilton estreia um novo engenheiro de corrida em Miami: Cédric Michel-Grosjean, que veio da McLaren onde era engenheiro de performance de Piastri. A mudança encerra três GPs de provisoriedade — e traz alguém com histórico de trabalhar com pilotos de alto nível sob pressão de campeonato.
É positivo. É necessário. Mas não é suficiente para que eu chame de solução antes de ver a prova em pista.
Miami não é mais um GP — é a data de vencimento de uma promessa
A Ferrari tem um histórico específico que não posso ignorar: em 2025, também prometeu upgrades decisivos em múltiplos momentos da temporada. O resultado foi a perda do título para uma McLaren que não prometeu nada — apenas entregou. Kimi Antonelli, com 19 anos, lidera o mundial com 72 pontos e uma consistência que a F1 ainda não sabe bem como processar. Hamilton, com 41 anos e sete títulos, está 31 pontos atrás.
Essa comparação não é crueldade. É contexto. Hamilton chegou à Ferrari sabendo que não tinha mais tempo para projetos de médio prazo. E a Ferrari apresentou o convite como "temos o carro para você ganhar em 2026". Se o SF-26 v2 aparecer em Miami rápido, confiável e capaz de brigar com Mercedes e McLaren, a temporada muda. O campeonato ainda está em aberto. Não é impossível.
Mas se Miami chegar e Hamilton voltar a brigar pela quinta ou sexta posição enquanto Antonelli vence e abre ainda mais vantagem, alguém na Via Emilia vai ter que responder a uma pergunta que a Ferrari evita como o diabo evita a cruz: o problema era o carro ou é o pacote inteiro?
Hamilton merece essa resposta. E merece ela em pista, não em comunicado oficial.
Miami decide. Sem mais desculpas.