A Aston Martin de Newey virou piada — e a conta é de Lawrence Stroll
Dois DNFs, pilotos com risco de lesão permanente e Newey torcendo o bico para um microfone quebrado. O projeto bilionário de Silverstone deu sinais de colapso antes mesmo de vencer uma corrida em 2026.

Vou guardar a sutileza para outra hora. A Aston Martin terminou o GP da Austrália com dois carros fora da corrida, dois pilotos que correram o risco de lesão permanente nas mãos e um Adrian Newey bufando para um microfone que não funcionava numa coletiva de imprensa que resumiu tudo que está errado nesse projeto. Isso não é uma fase ruim. É uma crise estrutural disfarçada de má sorte — e já passou da hora de todo mundo parar de fingir que não é.
O resultado do GP da Austrália foi duro para muita gente, mas para a Aston Martin foi simplesmente humilhante. Fernando Alonso saiu da corrida no 15º giro, entrou de volta no pit, saiu de novo — e parou definitivamente na 21ª volta. Lance Stroll terminou 43 voltas sem ser classificado. O pódio de Melbourne aconteceu em outro planeta para a equipe de Silverstone.
Os números que Lawrence Stroll não quer ver
Vou colocar os dados na mesa porque é isso que separa análise de achismo.
A Aston Martin completou apenas 128 voltas em três dias de pré-temporada no Bahrein — a quilometragem mais baixa do grid inteiro. Para comparação: qualquer equipe competitiva rodou mais de 300 voltas. A Honda entregou uma unidade de potência com vibrações tão severas que danificam a bateria do carro e colocam em risco a saúde dos pilotos. Alonso declarou que não conseguia completar mais de 25 voltas consecutivas sem risco de dano permanente nos nervos das mãos. Stroll? 15 voltas.
Quinze voltas. Numa corrida de 58.
No circuito de Albert Park, o AMR26 estava rodando quatro segundos por volta mais devagar do que os carros da ponta. Quatro segundos. Isso não é lacuna técnica — é um abismo. Quando a sexta-feira de treinos em Albert Park já mostrava os primeiros sinais de alarme, parte da imprensa ainda falava em "fase de ajuste". Fase de ajuste não faz piloto de classe mundial sair da pista com medo de ficar com as mãos paralisadas.
A armadilha Honda que Newey não viu vindo
Aqui está o problema real: a Honda reconstruiu seu departamento de F1 do zero, a partir de 2023, depois de ter mantido apenas um esqueleto de equipe desde 2021. Todas as outras quatro montadoras fornecedoras de motor já estavam trabalhando no regulamento 2026 há anos. A Honda chegou atrasada, com menos gente, e sem o histórico operacional de um ciclo técnico completo com a Aston Martin.
Newey sabia disso quando assinou? Provavelmente sabia de parte. Mas a coletiva de imprensa de quinta-feira em Melbourne — onde ele ficou torcendo o nariz para um microfone que cortava a fala toda hora enquanto o presidente da Honda Corporation ouvia calado ao lado — foi uma confissão pública de que a situação está além do que qualquer PR consegue dourar. Quando o maior projetista da história da F1 vai a uma coletiva para essencialmente envergonhar seu parceiro de motor diante da imprensa mundial, você sabe que a conversa nos bastidores está feia.
O projeto da Aston Martin foi construído sobre uma promessa sedutora: Newey + Honda + dinheiro de Lawrence Stroll = campeão. O problema é que promessa não pontua. E Honda, até agora, entregou sofrimento.
O argumento dos que ainda acreditam
Sim, existe o outro lado, e seria desonesto ignorá-lo. Newey nunca entrou num projeto para perder. O homem que projetou os carros campeões da Red Bull, da Williams e da McLaren tem um histórico que justifica paciência. Além disso, 2026 é o primeiro ano de um regulamento radicalmente novo — todas as equipes estão aprendendo. Mesmo a Mercedes, que dominou o domingo em Albert Park, ainda não se sabe se vai manter essa vantagem no Bahrein.
E tem mais: a Honda tem recursos para resolver o problema de vibrações. Isso não é questão de filosofia de projeto — é engenharia de pacote. Pode ser corrigido. Já foi visto antes.
Concordo com tudo isso. E ainda assim não consigo ignorar que estamos falando de uma equipe que não conseguiu classificar nenhum dos dois carros na primeira corrida do ano, enquanto pilotos falam em dano neurológico como parte do briefing técnico de fim de semana.
A conta vai chegar em Silverstone
Lawrence Stroll gastou fortunas para montar esse projeto. Trouxe Newey, firmou parceria com a Honda, expandiu o campus de Silverstone como se estivesse construindo um país. E o que apareceu em Melbourne foi um carro que os próprios pilotos têm medo de dirigir por mais de um stint.
Tem um ponto de não retorno numa crise assim. Ele chega quando as correções técnicas possíveis não conseguem mais compensar o tempo perdido no desenvolvimento — e quando os patrocinadores começam a fazer perguntas diferentes nas reuniões. A Aston Martin ainda não chegou lá, mas está correndo nessa direção numa velocidade que o AMR26 não consegue atingir em pista.
Newey vai dar um jeito? Talvez. Mas o que Albert Park mostrou é que o cronograma para esse "jeito" está ficando mais curto do que Lawrence Stroll gostaria de admitir. A vantagem que a Mercedes construiu ao longo da pré-temporada já era assustadora antes da corrida. O buraco que a Aston Martin cava a cada fim de semana sem pontuar é ainda mais preocupante.
O projeto bilionário de Silverstone sobrevive até o Bahrein com a narrativa de "ainda é cedo". Depois disso, vai precisar de resultados. Ou de uma boa história para contar.
Carla Ribeiro é colunista do Quinto Motor e escreve toda segunda-feira sobre o que a F1 não quer que você diga. Você pode discordar — aliás, ela prefere assim. Fontes: ESPN F1, The Race, Sky Sports F1.