Quinta em Dados: duelos de qualy — o raio-X dos companheiros em 2026
Três GPs, quatro sessões de classificação. Os dados de H2H entre companheiros revelam Bearman dominando Ocon, Bortoleto empatado com Hülkenberg e Ferrari separada de Mercedes por dezessete milésimos.

Três GPs, quatro sessões de classificação — incluindo o sprint da China — e 11 pares de companheiros de equipe sob o mesmo regulamento, o mesmo carro e as mesmas regras. O qualy é o laboratório mais limpo da F1: sem estratégia de pneus, sem gestão de corrida, sem gap de combustível. O que aparece é o piloto contra o cronômetro.
Esta edição do Quinta em Dados mapeia os duelos de companheiros no qualy em 2026, com os dados acumulados nas primeiras etapas da temporada. Não há análise mais honesta de performance relativa — especialmente porque, com o regulamento novo, nenhuma equipe pode garantir que seus dois pilotos dispõem de condições idênticas de desenvolvimento. O que a tabela mostra é onde cada companheiro está e a que custo.
A tabela: 11 equipes, 4 sessões, um placar definitivo
| Equipe | Piloto A | Piloto B | H2H | Gap médio |
|---|---|---|---|---|
| Alpine | Gasly | Colapinto | 4-0 Gasly | 0.700s |
| Aston Martin | Alonso | Stroll | 3-0 Alonso | 0.545s |
| Williams | Sainz | Albon | 3-0 Sainz | 0.387s |
| Racing Bulls | Lawson | Lindblad | 3-1 Lawson | 0.305s |
| Cadillac | Bottas | Pérez | 2-1 Bottas | 0.236s |
| Red Bull | Verstappen | Hadjar | 2-2 | 0.143s |
| Haas | Ocon | Bearman | 1-3 Bearman | 0.121s |
| McLaren | Norris | Piastri | 1-3 Piastri | 0.084s |
| Audi | Hülkenberg | Bortoleto | 2-2 | 0.068s |
| Ferrari | Leclerc | Hamilton | 2-2 | 0.017s Hamilton |
| Mercedes | Russell | Antonelli | 2-2 | 0.016s Russell |
Fonte: The Race / Formula1.com. H2H contabiliza todas as sessões de classificação dos GPs da Austrália, China e Japão, mais o sprint classificatório da China.
A leitura imediata: há uma separação quase geológica entre topo e base da tabela. De um lado, Ferrari e Mercedes separam seus pilotos por menos de dois centésimos. Do outro, Alpine carrega um gap de 0,700s — quarenta e quatro vezes maior. No meio, histórias que os números de ontem ainda não contavam.
As histórias que os números escondem
Bearman 3 x 1 Ocon na Haas
Quando Esteban Ocon foi anunciado como titular da Haas para 2026, o script parecia claro: veterano de oito temporadas no grid guia o novato Oliver Bearman pelo primeiro ano na elite. O placar do qualy diz outra coisa. Bearman, 20 anos, venceu três das quatro sessões e acumula 0,121s de vantagem.
Não é uma anomalia de circuito. Austrália, China, Japão — três traçados completamente diferentes em perfil, temperatura e desgaste de pneus. Bearman responde ao VF-26 com uma naturalidade que Ocon ainda não encontrou. Para a Haas, que vive uma temporada de contrastes — quarto lugar no mundial de construtores, mas com o carro exigindo ainda mais do piloto do que da aerodinâmica —, esse dado é um dos poucos positivos do ciclo inicial.
Bottas 2 x 1 Pérez na Cadillac
Sérgio Pérez chegou à Cadillac após ser dispensado pela Red Bull no final de 2025, com um histórico de segunda metade de temporada que se deteriorou de forma consistente. Valtteri Bottas, 36 anos e onze temporadas na elite, acumula zero títulos mundiais — e está ganhando o duelo de qualy. Por 0,236s de margem e dois votos a um.
Há contexto: a Cadillac é um carro novo em uma equipe nova, e Bottas acumulou expertise ao longo da carreira em adaptar setups a máquinas sem histórico de desenvolvimento. Mas o resultado ainda surpreende, especialmente porque Pérez chegou como o nome de maior notoriedade da dupla.
Bortoleto 2 x 2 com Hülkenberg: o empate que vale mais que uma vitória
Para o Brasil, o dado mais relevante está na coluna da Audi. Gabriel Bortoleto, 20 anos, campeão da Fórmula 2 em 2024, está empatado no H2H com Nico Hülkenberg — veterano com quase 220 GPs de experiência e o recorde histórico de mais largadas sem uma única vitória.
O gap: 0,068s em favor de Hülkenberg. O placar: 2-2.
Para um rookie na primeira temporada em uma equipe estreante, com um carro que ainda não atingiu seu potencial de desenvolvimento, esse resultado é excepcionalmente sólido. Os dados preliminares já indicavam uma adaptação acima da média dos rookies desta temporada; os duelos de qualy confirmam o padrão com uma amostra de quatro sessões em circuitos distintos.
A Audi tem a maior velocidade de ponta em linha reta do grid — 341 km/h registrados nos testes de pré-temporada —, mas perde eficiência em setores de baixa velocidade. Bortoleto tem extraído o máximo disponível dentro dessa equação. Para referência, o desempenho de estreia de Antonelli — outro rookie desta geração — deixou claro que o talento de 2026 não é mérito de boa máquina; é mérito de preparação acelerada e capacidade de adaptação.
No topo, a margem do erro é zero
Ferrari e Mercedes ocupam o patamar mais exigente da tabela. Dezesseis e dezessete milésimos não separam companheiros de equipe — separam mundos na F1 de 2026.
Charles Leclerc e Lewis Hamilton trocaram de posição duas vezes no H2H. A vantagem acumulada de Hamilton é de 0,017s. O que esse número diz: Hamilton, que chegou à Ferrari com a missão declarada de conquistar o oitavo título antes de encerrar a carreira, está respondendo tecnicamente no qualy. A narrativa de transição penosa não encontra respaldo nos dados desta métrica.
Na Mercedes, George Russell tem 0,016s sobre Kimi Antonelli. Russell venceu duas sessões. Antonelli venceu duas. É o duelo mais equilibrado do grid — e também o mais revelador sobre o nível de ambos, porque o W17 é o melhor carro do campeonato. Quando dois pilotos estão separados por dezesseis milésimos em quatro sessões, a equipe tem o problema mais invejável que existe: dois pilotos de nível similar no carro dominante. A análise de confiabilidade do início de temporada mostrou como a Mercedes traduziu essa igualdade em 135 pontos no campeonato de construtores — sem desperdiçar uma única corrida.
A lição dos dados do topo é que, nessas equipes, o qualy já se tornou um exercício psicológico tanto quanto técnico. Um erro de preparação, um pneu fora da janela de temperatura, uma curva aberta em Q3 — margens que o H2H captura, e que 0,016s ou 0,017s não perdoam.
Covariáveis que os números não capturam
A tabela tem um limite metodológico: ela não controla diferenças de setup, prioridade de desenvolvimento ou alocação de componentes novos entre os pilotos da mesma equipe.
Na Aston Martin, parte do gap Alonso-Stroll pode refletir a decisão da equipe de concentrar o trabalho de Fernando com a PU Honda durante a pausa técnica de abril, entregando ao espanhol componentes em estado mais avançado de calibração. Na Alpine, o 0,700s de Gasly sobre Colapinto é extenso demais para ser atribuído apenas a covariável — é diferença de experiência e, provavelmente, de confiança na frenagem.
Para o Japão, Verstappen e Hadjar sequer chegaram ao Q3 — o Red Bull foi eliminado em Q2 na sessão de qualificação principal. O H2H do par teria valores diferentes com um carro competitivo, e o empate 2-2 esconde o fato de que Suzuka foi a etapa mais degradante para a equipe em termos de ritmo comparativo.
O que Miami vai revelar
Com o sprint em Miami — segundo da temporada — a amostra vai crescer para cinco sessões em quatro rodadas. Nesse ponto, os padrões começam a se consolidar com confiança estatística mais robusta.
O que acompanhar:
- Haas: Bearman mantém a dominância sobre Ocon após o intervalo de cinco semanas?
- Audi: Bortoleto quebra o empate com Hülkenberg no sprint classificatório?
- Aston Martin: Alonso mantém o 3-0 com o pacote Honda revisado?
- Mercedes e Ferrari: quem rompe o empate técnico nos dois duelos mais apertados do grid?
Nas planilhas, 0,068s separam Bortoleto de Hülkenberg. Na prática, separam a narrativa de um rookie promissor da de um piloto que chegou para disputar o campeonato. Miami vai começar a escrever qual das duas é verdadeira.