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McLaren: duplo DNS em Xangai expõe crise profunda do campeão

Norris e Piastri não saíram do pit lane na China por falhas elétricas separadas na PU. Com 80 pontos de desvantagem para a Mercedes, a defesa do título da McLaren está em xeque após apenas dois GPs.

PorRicardo Mendes
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McLaren: duplo DNS em Xangai expõe crise profunda do campeão
Foto: The Race / Reprodução — McLaren sem largada em Xangai pela primeira vez em mais de 20 anos

Dois carros. Dois problemas elétricos distintos na unidade de potência. Uma largada perdida em Xangai e uma crise que começou a tomar forma ainda na Austrália. A McLaren, campeã da temporada anterior, acumula apenas 18 pontos depois de dois GPs — 80 atrás da Mercedes, que lidera com folga.

Não é pânico. Mas é muito sério.

O que aconteceu em Xangai

Quando o pitwall da McLaren comunicou aos comissários que Norris e Piastri não iriam largar no GP da China, o paddock fez silêncio por alguns segundos. A equipe campeã, com ambos os carros posicionados entre o quinto e o sexto lugar no grid, simplesmente ficou na garagem.

A causa: duas falhas elétricas separadas no sistema da unidade de potência, uma em cada carro. A equipe levantou o assoalho do carro de Norris para investigar, acreditou ter resolvido — e descobriu que não havia resolvido nada. O de Piastri enfrentou um problema diferente, mas no mesmo componente.

"Uma coincidência extremamente infeliz de dois problemas diferentes no lado elétrico da unidade de potência, aparecendo ao mesmo tempo", definiu o chefe de equipe Andrea Stella à The Race. Em mais de 20 anos, a McLaren não havia retirado os dois carros antes de uma largada.

O resultado: Norris, que havia terminado em quinto lugar na Austrália (10 pontos), saiu da China com zero. Piastri, que já havia tido um DNS em Melbourne após bater na volta de reconhecimento, acumula dois DNSs em dois GPs — algo raríssimo na história moderna da F1. Seus únicos 3 pontos vieram da sprint australiana.

McLaren em números: 18 pontos e 80 de desvantagem

PilotoPontosPosição no campeonato
Lando Norris15
Oscar Piastri312º
McLaren (construtores)18

Para contextualizar: a Mercedes soma 98 pontos. A Ferrari, 67. A McLaren, 18. Oitenta pontos de desvantagem para o líder após apenas dois finais de semana. A análise completa do campeonato após dois GPs mostra como a temporada já tomou um contorno que ninguém — dentro ou fora de Woking — previa.

A crise, porém, não é só de confiabilidade. Mesmo sem os DNSs, a MCL41 não estava próxima da Mercedes. Na Austrália, a McLaren chegou mais de 50 segundos atrás na corrida. Em Xangai, o gap na qualificação foi de quase oito décimos. Norris foi direto: "Não é um carro capaz de lutar por um pódio no momento, muito menos por uma vitória."

A raiz do problema tem um endereço conhecido no paddock: a unidade de potência Mercedes. A McLaren usa o mesmo motor que a equipe de trabalho, mas a HPP (Mercedes High Performance Powertrains) domina extratos de performance que os clientes simplesmente não conseguem replicar. Estima-se que cerca de 50% do déficit de ritmo venha desta lacuna de conhecimento. Piastri resumiu com precisão: "Saímos de cada sessão de classificação achando que fizemos um bom trabalho com a unidade de potência, e depois descobrimos que havia um tempo que não enxergamos."

O desenho da MCL41 adiciona complexidade ao problema. O chassi tem entre-eixos mais curto que os rivais — uma escolha que reduz a área do assoalho e, consequentemente, o downforce. Com menos downforce, a recuperação de energia eficiente fica comprometida, e em 2026, recuperação de energia é velocidade.

O que vem pela frente — e por que Suzuka preocupa

A boa notícia é que a equipe já tem um horizonte. Um pacote de atualização significativo está previsto para Miami, quarta etapa do campeonato — cinco semanas de desenvolvimento entre a China e a Flórida.

A má notícia é que antes disso vem o GP do Japão (Suzuka, 27-29 de março), um circuito de alta carga aerodinâmica que pode expor ainda mais o déficit de downforce da MCL41. Como detalhado no guia completo de Suzuka, o traçado japonês cobra caro de quem não tem confiança mecânica nem acerto de alto downforce — exatamente o que falta à McLaren agora.

Stella tentou manter a calma pública: "Investigaremos junto com a HPP e veremos qual é o aprendizado." Mas a mensagem nas entrelinhas é clara — a McLaren não controla parte significativa do que a está afundando. E para um campeão, isso é o pior cenário possível.

Norris ainda pode virar o campeonato. O talento está intacto, a equipe tem recursos para reagir, e 80 pontos de desvantagem em março não são sentença de morte. Mas perder essa margem para uma Mercedes que parece ter resolvido o que a McLaren ainda nem entendeu completamente é o tipo de gap que não se fecha com uma sprint race bem aproveitada.

O paddock vai de Xangai para Suzuka com a McLaren na terceira posição da tabela — e com a sensação, dentro e fora da garagem, de que a situação é ainda mais séria do que os números mostram.

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Sobre o autor

Ricardo Mendes

Editor-Chefe

Jornalista especializado em F1 há 15 anos. Acompanha o paddock desde 2010.