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Haas F1 Team: guia completo do menor time do grid em 2026

De novata americana em 2016 ao 4.º lugar no campeonato de 2026 — entenda como a Haas construiu o modelo mais incomum da Fórmula 1 e como a Toyota está transformando esse projeto em realidade.

PorAna Paula Costa
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Haas F1 Team: guia completo do menor time do grid em 2026
Foto: Autosport / Reprodução — Oliver Bearman liderou a performance da Haas na abertura da temporada 2026 com 17 dos 18 pontos marcados

Dezoito pontos. Quarto lugar no campeonato de construtores. Três corridas disputadas. A Haas F1 Team raramente aparece nessa conversa — e em 2026 o menor time do grid se tornou uma das histórias mais surpreendentes da temporada. Para entender por que, é preciso voltar ao começo e compreender um modelo de negócio que não tem precedente na Fórmula 1 moderna.

A origem: Gene Haas e a aposta americana na F1

Gene Francis Haas não é um nome que aparece com frequência nos painéis luminosos dos boxes da F1. É um industrial americano, fundador da Haas Automation — o maior fabricante de máquinas-ferramenta CNC da América do Norte — e criador de equipes no NASCAR. Em abril de 2014, quando a FIA homologou a licença de uma nova equipe americana de Fórmula 1, o paddock ficou curioso. E cético.

A estreia na temporada 2016 foi uma declaração de intenções. Romain Grosjean terminou o GP da Austrália em sexto, somando oito pontos logo na primeira corrida. Foi o melhor resultado de estreia de qualquer time na Fórmula 1 neste século. No final daquela temporada, a Haas havia acumulado 29 pontos e terminado em oitavo entre os construtores — também recorde para um time debutante da era moderna.

A diferença estava na abordagem. Enquanto equipes como Caterham e HRT tentaram construir tudo do zero e quebraram financeiramente, a Haas foi pragmática desde o dia um. A equipe firmou uma parceria técnica profunda com a Ferrari, da qual adquire unidade de potência, câmbio e acesso técnico ao complexo em Maranello. Para o desenvolvimento do chassis, terceirizou o trabalho à Dallara — especialista italiana sediada em Parma. A Haas de Gene Haas nasceu pequena por design, não por limitação.

O modelo único que confundiu o paddock inteiro

A Haas opera com a menor estrutura do paddock da Fórmula 1. Por anos, funcionou com pouco mais de 230 funcionários — enquanto Ferrari, Mercedes e Red Bull Racing empregam entre 1.500 e 2.000 pessoas. Seu quartel-general fica em Kannapolis, Carolina do Norte, mas a base operacional europeia está em Banbury, Inglaterra, onde os mecânicos montam e preparam os carros entre os Grandes Prêmios.

Esse modelo levantou críticas dentro da F1. A equipe chegou a ser chamada de "cliente da Ferrari disfarçado de construtor". A acusação tem fundamento parcial — a Haas utiliza uma série de componentes fornecidos por Maranello, todos dentro dos limites regulamentares —, mas ignora o fato de que qualquer time precisa de uma fundação técnica para existir. A Haas foi a primeira a formalizar esse modelo de forma transparente e eficiente.

O modelo funciona porque os custos de desenvolvimento ficam compartilhados com a Ferrari. Isso libera o orçamento da Haas para áreas onde pode fazer diferença: aerodinâmica, calibração de setup e desenvolvimento de piloto. A desvantagem histórica é que o time tem menos controle sobre componentes-chave. Quando a Ferrari errou entre 2019 e 2021 — período marcado pela investigação sobre a unidade de potência e pelas penalidades da FIA —, a Haas sentiu o impacto diretamente, vivendo temporadas difíceis com carros defasados.

Mas a resiliência foi recompensada. Com Ayao Komatsu assumindo a liderança técnica e depois a chefia geral da equipe em 2024, o time encontrou uma identidade mais sólida. Hoje o quadro está em 380 funcionários — 150 a mais do que dois anos atrás — e a estrutura operacional é a mais eficiente que a equipe já teve.

A revolução Toyota: como a TGR transformou a Haas

A virada estrutural começou em outubro de 2024. A Toyota Gazoo Racing, ausente da F1 desde o fim catastrófico de 2009, assinou uma parceria técnica com a Haas. O acordo inicial previa acesso a recursos de simulação, dados de aerodinâmica computacional e engenheiros especializados da TGR. Em 2025, pilotos japoneses ligados à Toyota — Ryō Hirakawa, Ritomo Miyata, Sho Tsuboi e Kamui Kobayashi — já pilotavam o carro de temporadas anteriores no programa TPC (Testing of Previous Cars).

Para 2026, a Toyota Gazoo Racing elevou o compromisso: tornou-se patrocinadora título. O time passou a se chamar oficialmente TGR Haas F1 Team. Mas mais do que o logotipo na lataria, a Toyota investiu na construção de um simulador de última geração nas instalações de Banbury — o primeiro simulador próprio da equipe em toda a sua história, até então inexistente na operação da Haas.

A parceria tem uma característica incomum que vale destacar: a Toyota não fornece motor nem câmbio. A Haas continua na Ferrari para a parte mecânica. O que a Toyota oferece é expertise em desenvolvimento de hardware, engenharia de software e recursos humanos especializados. A equipe de Gene Haas ganhou, na prática, um segundo parceiro técnico de alto nível sem abrir mão de sua estrutura existente.

"A Toyota nos deu ferramentas que simplesmente não tínhamos," disse Komatsu antes da abertura da temporada 2026. "O simulador muda completamente nossa capacidade de desenvolver o carro durante o ano."

Oliver Bearman, Esteban Ocon e os números de 2026

A temporada 2026 virou a Fórmula 1 de cabeça para baixo com o novo regulamento técnico — motores menores, aerodinâmica ativa obrigatória, carros mais leves e uma filosofia de design completamente diferente. Os times grandes sofreram para entender os novos conceitos. A Haas, menor e mais ágil, acertou a direção logo de saída.

GPBearmanOconPontos do dia
Austrália7.º (6 pts)Fora dos pontos6
China Sprint8.º (1 pt)Fora dos pontos1
China5.º (10 pts)Fora dos pontos10
JapãoAbandono (acidente)10.º (1 pt)1
Total17 pts1 pt18 pts

Oliver Bearman foi o protagonista absoluto. O britânico de 20 anos, ex-piloto da academia Ferrari, marcou 17 dos 18 pontos da equipe. Sua quinta posição na China foi uma exibição de maturidade: largando da nona posição, o inglês passou seis carros durante a corrida com gestão de pneus impecável. Haas "doesn't see the ceiling" com o jovem, segundo declarou a própria equipe à Motorsport.com.

No Japão, um toque com Franco Colapinto a 190 mph na entrada da Colher resultou em um impacto de 50G com a barreira de proteção. Bearman saiu ileso, mas o incidente gerou debate imediato sobre os limites de defesa lateral no novo regulamento. Nossa análise sobre o tema está em revisão regulamentar após o acidente de Suzuka.

Esteban Ocon, em seu primeiro ano após deixar a Alpine, ainda busca o ritmo. Um ponto no Japão foi o único retorno até aqui — o francês, experiente e reconhecidamente rápido, está em processo de adaptação ao VF-26.

Por que o 4.º lugar no campeonato não é coincidência

É tentador chamar a Haas de beneficiária do caos inicial do novo regulamento. Mas os números contam outra história.

A Haas terminou 2025 em oitavo lugar com 79 pontos, sua melhor temporada desde 2018. O VF-26 foi o primeiro carro desenvolvido com influência direta do simulador Toyota. A filosofia de aerodinâmica ativa da era 2026 — que reintroduz elementos de sopradores e flaps móveis controlados eletronicamente — favorece equipes que apostam em conceitos simples e funcionais, em vez de soluções complexas que exigem centenas de horas de túnel de vento.

A Haas foi exatamente isso: simples, funcional e rápida no desenvolvimento durante o inverno. O campeonato após as três primeiras corridas mostra a equipe com 2 pontos de vantagem sobre a Aston Martin na quarta posição.

O próprio Komatsu é criterioso nas expectativas. "Manter o 4.º lugar será muito desafiador. A guerra de desenvolvimento vai favorecer as equipes maiores." O objetivo realista é terminar entre quinto e sétimo no campeonato de construtores — um feito expressivo para uma operação de 380 pessoas que compete contra fábricas inteiras.

O que esperar da Haas no restante de 2026

Com o GP de Miami se aproximando — a corrida acontece em 1 de maio no Miami International Autodrome, como sprint weekend —, a Haas tem pela frente a primeira corrida em casa da Cadillac, o outro time americano do grid. A pressão de representar bem os EUA vai existir dos dois lados.

A rivalidade entre os dois times americanos é saudável para o esporte. Enquanto a Cadillac busca o primeiro ponto na temporada com o upgrade de Miami, a Haas entra na corrida como referência americana estabelecida — dez anos mais velha, mais experiente e, por ora, com dezessete pontos na tabela.

A Autosport descreveu a Haas como "o time que suportou a tempestade de 2026 e começou a prosperar". Difícil discordar.

Perguntas frequentes sobre a Haas F1

A Haas é realmente uma equipe americana? Sim. A equipe é licenciada nos Estados Unidos, fundada por Gene Haas (americano) e com sede principal em Kannapolis, Carolina do Norte. Como toda equipe da Fórmula 1, sua operação técnica cotidiana acontece na Europa, em Banbury, na Inglaterra.

A Haas usa peças da Ferrari? Sim, dentro do permitido pelo regulamento. A Haas adquire da Ferrari unidade de potência, câmbio e alguns componentes classificados como "partes não listadas" (Non-Listed Parts, ou NLP). O chassis e a aerodinâmica são desenvolvidos internamente pela equipe.

A Toyota vai se tornar equipe própria na F1? Por enquanto, não. A Toyota Gazoo Racing está na F1 como parceira técnica e patrocinadora título da Haas. Dirigentes da TGR indicaram que este modelo é o desejado por ora — um retorno gradual ao esporte sem o investimento bilionário de ser construtora independente.

Oliver Bearman é da academia Ferrari? Sim. Bearman é ex-piloto do programa de jovens talentos da Ferrari e fez sua estreia na F1 pelo time italiano no GP da Arábia Saudita de 2024, substituindo Carlos Sainz. Em 2025, migrou para a Haas como titular — mas os laços com Maranello continuam bem próximos.

Qual foi o melhor resultado da Haas na história? O melhor desempenho da equipe no campeonato de construtores foi o 5.º lugar em 2018, quando Romain Grosjean e Kevin Magnussen formaram uma das duplas mais consistentes do meio do grid, somando 93 pontos. O começo de 2026 sugere que este recorde pode ser ameaçado.