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A McLaren tem uma casa em Miami. A Mercedes quer derrubá-la

Norris ganhou em Miami em 2024, Piastri em 2025. Este ano, a McLaren chega ao circuito favorito em total colapso — 79 pontos abaixo da Mercedes, que ainda não venceu lá em 5 tentativas.

PorCarla Ribeiro
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A McLaren tem uma casa em Miami. A Mercedes quer derrubá-la
Foto: The Race / Reprodução — McLaren chega a Miami 2026 como sombra da equipe que dominou o circuito nos dois anos anteriores

Existe uma frase que Lando Norris deveria tatuar no pulso antes de embarcar para a Flórida: em algum momento, a ironia te alcança.

Em 2024, Norris venceu o GP de Miami pela primeira vez na carreira — no carro mais rápido da temporada, numa tarde que parecia marcar o começo de uma era. Em 2025, foi a vez de Oscar Piastri cravar a bandeirada no mesmo circuito. A McLaren transformou o traçado do Hard Rock Stadium em seu quintal particular: dois anos consecutivos de vitória, identidade construída, território demarcado. A festa laranja em Miami virou marca registrada.

Agora é 2026. A McLaren está em terceiro no campeonato de construtores com 56 pontos. A Mercedes tem 135. Norris é quinto no mundial de pilotos com 25 pontos. E os dois que no ano passado brigavam pela vitória toda semana chegam ao seu circuito favorito como coadjuvantes de uma história que escapou completamente do controle deles.

Mas sabe o que é melhor? A equipe que lidera tudo — a mesma que venceu os três primeiros GPs de 2026 e está destruindo o grid — nunca venceu o GP de Miami. Em cinco edições do circuito desde 2022, a Mercedes voltou de mãos vazias todas as vezes. Tecnicamente, é o único lugar no calendário em que a Silver Arrows simplesmente não sabe ganhar.

E é exatamente nesse circuito que Kimi Antonelli chega como líder do campeonato do mundo.

O feudo que a McLaren construiu

Há algo quase feudal na relação que a McLaren desenvolveu com Miami. Norris em 2024, num MCL38 que respondia às vontades do piloto como poucos carros da história recente. Piastri em 2025, numa tarde em que a laranja parecia a única cor que existia no paddock. A equipe de Woking não só venceu — ela colonizou o circuito. Marketing, fãs, presença: Miami era McLaren, McLaren era Miami.

E é exatamente por isso que 2026 dói tanto.

Porque quando você constrói uma identidade em cima de um circuito, a queda naquele mesmo lugar tem peso diferente. Não é só uma derrota — é um sinal. E o sinal que a McLaren vai enviar em Miami 2026 pode ser o mais importante do campeonato até aqui.

A realidade cruel dos números

O MCL40 é, tecnicamente, o menor carro do grid — quase 100 milímetros mais curto que seus principais concorrentes. Menor carro significa menor assoalho, menor assoalho significa menos downforce, menos downforce significa menos confiança em curvas rápidas. Na China, a equipe sofreu uma dupla DNS — dois carros que não saíram da largada — pela primeira vez em mais de 20 anos. Em Suzuka, finalmente trouxeram ambos à bandeirada: Norris em sexto, Piastri em sétimo. Isso foi chamado de "progresso".

Norris foi direto, como sempre: o MCL40 é "provavelmente o pior carro" que ele já pilotou. Isso, vindo do homem que no ano passado achou que tinha chegado ao topo do mundo.

Andrea Stella prometeu um pacote de upgrades massivo para Miami. Disse que o objetivo não é só andar mais rápido, mas "entender o carro". Se uma equipe ainda está tentando entender o próprio carro antes do quarto GP da temporada, a situação é mais grave do que os press releases fazem parecer.

A maldição da Mercedes em Miami

Aqui está o detalhe que o destino preparou com cuidado: a Mercedes vai para Miami — único circuito onde nunca ganhou — como a equipe mais dominante da temporada em anos. Antonelli venceu o GP do Japão e lidera o campeonato com 72 pontos aos 19 anos — o mais jovem líder do mundial na história da F1. Russell é segundo com 63. Uma dupla imbatível, num carro que simplesmente não para.

A "maldição de Miami" é real no papel. Mas cursar sobre algo quando sua equipe está em crise e você lidera o campeonato com folga é muito diferente de cursar quando você está empatado no grid.

Antonelli vai a Miami sem medo de carregar o peso da tradição. Ele não tem tradição nenhuma. Tem 19 anos, um carro extraordinário e zero razões para respeitar qualquer circuito em particular.

Uma casa que pode virar um fantasma

Não estou escrevendo o obituário da McLaren. Stella tem histórico de resolver problemas difíceis, e upgrades reais podem mudar a conversa rapidamente. Mas entre a promessa e a entrega há 5,41 quilômetros de asfalto na Flórida que vão julgar tudo isso sem cerimônia.

A Mercedes vai encerrar sua maldição de Miami. Provavelmente com Antonelli ou Russell no topo do pódio. E a McLaren vai assistir de longe, tentando explicar por que o circuito que ela transformou em casa virou o palco do seu maior vexame da temporada.

Norris ganhou o título para chegar em Miami com o pior carro da grade e assistir um adolescente de 19 anos enterrar a última ilusão do campeonato.

Se isso não é ironia, eu não sei o que é.


Carla Ribeiro é colunista do Quinto Motor. Opiniões expressas são da autora.