Audi dá prazo para resolver largada de Bortoleto antes de Miami
Em três GPs, a Audi perdeu pontos preciosos por largadas ruins. No Japão, Bortoleto foi P9 no qualy e caiu para P13 na corrida. Binotto chama o problema de prioridade máxima para a pausa.

Gabriel Bortoleto cravou o nono lugar no grid de Suzuka. Nas sessões de classificação, o brasileiro entregou o melhor resultado do ano com a Audi — a 1,496 segundo da pole de Kimi Antonelli, dentro do grupo que compete pela zona de pontos. Foi o resultado mais promissor da dupla Audi na temporada 2026.
Então veio a largada.
Em questão de metros, Bortoleto perdeu quatro posições. Nico Hülkenberg, que largava do décimo terceiro, chegou a cair para o décimo nono na primeira curva. O padrão já era conhecido — e a corrida japonesa tornou impossível ignorar: era o terceiro Grande Prêmio seguido em que o problema de lançamento da Audi corroía tudo o que o piloto havia construído no sábado.
Bortoleto cruzou a linha em décimo terceiro. Hülkenberg foi décimo primeiro. Nenhum ponto. A Audi segue com dois no campeonato — todos eles do P9 de Bortoleto na Austrália, única largada em que o sistema funcionou de forma aceitável no ano.
O inimigo que persiste desde Melbourne
O problema de largada da Audi não surgiu em Suzuka. Já estava presente na estreia em Albert Park, ficou irrelevante na China apenas porque Bortoleto não chegou a largar por falha hidráulica, e se consolidou como o principal obstáculo da equipe no GP do Japão.
O próprio Bortoleto admitiu a frustração, com a maturidade que tem marcado suas declarações ao longo da temporada: "A largada não foi boa. Sabemos que é algo em que precisamos trabalhar como equipe desde a primeira corrida."
E foi mais fundo: "Nas curvas, o ritmo estava ok. Mas nas retas eu estava sofrendo um pouco mais hoje. Algo que eu ainda não sei o que ou por quê, mas é algo que todos reconhecemos dentro da equipe."
Hülkenberg foi direto ao ponto: "Com uma largada normal, havia pontos disponíveis. É decepcionante e frustrante." O alemão admitiu que, do P13, teria entrado nos pontos sem o colapso na saída.
O inimigo não é apenas mecânico. Mattia Binotto, que acumula o cargo de team principal após a saída surpresa de Jonathan Wheatley, explicou a complexidade: "A largada certamente não é um dos nossos pontos fortes no momento, e a razão pela qual não foi resolvida até agora é porque não é uma coisa óbvia de se consertar."
O que torna o cenário ainda mais frustrante é o contraste com o sábado. A análise do Quinta em Dados desta semana mostrou que Bortoleto e Hülkenberg estão empatados no confronto interno de classificação — 2 a 2 nas quatro sessões disputadas. No duelo do sábado, a Audi não é uma equipe de fundo de grid. O problema está especificamente em ir da parada ao primeiro quinto de reta.
A pausa que a Audi mais precisava
O cancelamento dos GPs de Bahrein e Arábia Saudita em função do conflito no Oriente Médio deu às equipes cerca de cinco semanas de fábrica entre Suzuka e Miami. Para a maioria, foi uma interrupção inesperada no ritmo. Para a Audi, foi um presente.
Binotto não minimizou: "É bom para nós que algumas corridas tenham sido canceladas, porque como equipe vamos ter mais tempo para refletir sobre o começo da temporada."
O foco está em dois eixos. O primeiro são as largadas — o sistema de controle de lançamento precisa ser identificado, corrigido e validado antes que o paddock retorne a Miami. "Vai ser uma das prioridades nas próximas semanas para estarmos mais preparados para Miami," confirmou o italiano.
O segundo eixo é o início real do trabalho de desenvolvimento. Até agora, a equipe operou em modo reativo — falhas de confiabilidade, trocas de motor, adaptação ao regulamento novo. A pausa abre espaço para o primeiro ciclo estruturado de análise.
Há um limitante que Binotto reconhece sem rodeios: o motor Audi carrega um déficit estimado em torno de 30 cavalos em relação à Mercedes. "A maior parte do gap que temos em relação às equipes de topo vem da unidade de potência. O desenvolvimento do motor pode levar mais tempo." Esse gap não se resolve em semanas — é trabalho de meses.
Depois de Miami, ao completar as primeiras seis corridas, a Audi deve se qualificar para slots extras de desenvolvimento de motor pelo regulamento da FIA para equipes com unidade de potência abaixo da média. É uma janela real, mas de médio prazo.
O que Miami precisa ser
A corrida de Miami (1 a 3 de maio) não é mais um teste de temporada nova. É uma prova concreta de que a pausa serviu para algo.
Bortoleto tem dois pontos. Hülkenberg, zero. A Audi está em oitavo no campeonato de construtores, empatada com a Williams mas à frente por critério de desempate — atrás apenas de Cadillac e Aston Martin, que ainda não pontuaram.
O brasileiro mantém o discurso maduro que marcou sua chegada à F1. Não culpa a equipe publicamente, não pressiona além do necessário, reconhece os problemas com clareza. A Audi construída do zero — sem histórico de estrutura, sem décadas de dados acumulados — está tentando competir num calendário que não perdoa erros de processo. As largadas ruins custaram pontos reais a Bortoleto pelo menos em duas das três corridas.
Miami tem que ser diferente. Binotto sabe disso. "Milagres não são possíveis. Precisamos de planos adequados para tratar e melhorar no futuro."
É o aviso mais honesto que um team principal pode dar. E é exatamente o que a Audi tem as próximas semanas para provar.